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"Minha alma se parece ao mar: tem ondas e tempestades; mas nas suas profundidades muitas perólas se hão de encontrar." Heinrich Heine - poeta alemão

quinta-feira, 8 de maio de 2008

"Vai, Carlos! ser gauche na vida."





Adoro esse minerim carioca... itabirano "de alma de ferro", que tem "o hábito de sofrer, só porque o diverte".

"Gauche" na vida, quer dizer, acanhado, inepto...enfim às avessas, o "torto" que está à margem da realidade e que com ela não consegue se comunicar. Era como que ele se via, e é por isso que me identifico com ele.

Tenho como lema a sua deixa...

"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida.
Mas a poesia (inexplicável) da vida. "


Precioso, preciso nos versos livres e brancos.
"Estilo sublime", "estilo mesclado", refinadíssimo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Falou que o Amor tem seu tempo, que é "privilégio dos maduros", que "Amor começa tarde"... e que "se aprende no limite".
E que "apesar de todas as suas contradições, o amor não perde a sua condição de sentimento maior" ...
..." A ausência do amor é a negação da própria vida."

Ler seus poemas devolvem-me a esperança, a fé de que não há nada mais o que fazer "senão, entre criaturas amar".



Poesias preferidas:

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta,
e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma avede rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente
e por se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são?
Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo
volve a nada.
Nada.
Ninguém.
Amor, puro fantasma
que os passeia de leve,
assim a cobra se imprime
na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos
para sempre.
deixaram de existir,
mas o existido
continua a doer
eternamente.


MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.


O AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede.
Nada espera,
mas do destino
vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento
e de beleza.
Por aquelas
mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte
o tempo desmorona
aquilo que foi grande
e deslumbrante,
o antigo amor,
porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente,
mas pobre de esperança.
Mais triste?
Não.
Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo
em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas
o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta,
não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra
teus olhos
resplandecem enormes.
És todo certeza,
já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice,
que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais
que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas
que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo
em que não adianta morrer.
Chegou um tempo
em que a vida é uma ordem.
A vida apenas,
sem mistificação.

Referência:
Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987.
Carlos Drummond de Andrade/seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico por Rita de Cássia Barbosa - 2 ed. - São Paulo: Nova Cultural, 1988.
( Literatura Comentada)

2 comentários:

Anônimo disse...

ai drummond sempre com razão no seu amar incondicional e maduro...
bjs

iara

Cynthia Vieira disse...

Pois é...não há mais nada a fazer do que entre criaturas ...AMAR.
bjs