E um dia...
Abri meu coração!
Fui sincera, como nunca devemos ser...
Nem pensei em me proteger...
Tudo que queria era falar do MEU AMOR.
Era que soubessem do MEU AMOR.`
Patética? Que pensem...que falem...
Jogos? Artimanhas?? Que nada...
Sem pudor, mas com dignidade
Falei as coisas mais lindas, mais doces, mais delicadas...
Falei da minha agonia, da minha paixão, da minha urgência...
De viver, de dar o MEU AMOR.
Ahh!! Como bom gritar para o mundo:
EU TENHO UM AMOR!! VOCÊ É O MEU AMOR!!
Pronto. Falei!
O resultado?
Triste.
Piada e diversão.
Mas não importa.
Tenho orgulho e admiração.
Fui sincera, como SEMPRE devemos ser.
Cynthia maio 2008
Quem sou eu
- Cynthia Vieira
- "Minha alma se parece ao mar: tem ondas e tempestades; mas nas suas profundidades muitas perólas se hão de encontrar." Heinrich Heine - poeta alemão
sexta-feira, 30 de maio de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
O mistério de Clarice...
ADORO essa mulher, essa menina!!!
Profunda , misteriosa, tempestiva, lúcida, elegante...enfim...MARAVILHOSA!!!!!
CLARICE LISPECTOR
*********************
Profunda , misteriosa, tempestiva, lúcida, elegante...enfim...MARAVILHOSA!!!!!
CLARICE LISPECTOR
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VIVO me fazendo as mesmas perguntas e chegando a mesma conclusão...rsrsrs:
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever?
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever?
Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
************************************************************
Olha que liiindo!!!! Tudo o que perdemos por não estarmos distraídos...
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos!Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
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Olha que liiindo!!!! Tudo o que perdemos por não estarmos distraídos...
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos!Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
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E assim, com algum atraso, veio-me o AMOR...
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez. Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.Pois juro que a vida é bonita.”
Referência:
Fragmentos de crônicas publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973.
Indicação:
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Perdoar...
Levava pela vida
Um presságio:
Aprender a perdoar.
No início não fazia sentido,
Não tinha o que perdoar.
Com o tempo a vida
Mostrou
O grande desafio que é
Ser essencialmente Bom.
Perdoar o tapa na cara,
O soco no estômago,
A puxada de tapete...
Nem todos os valores cristãos,
Nem todas as filosofias orientais
Deram-me tal nobreza.
Não é para todos os casos,
Qualquer animosidade.
Apenas perante a mais sórdida maldade,
Crueldade, perversidade.
Situações onde
Tudo se quebra, tudo se rompe;
Que não deixam caminhos para voltar.
Tentar juntar os pedaços?
Exercitar a alteridade?
A compaixão?
Já não dá...
Então...carrego comigo
Essa incoveniente e pesada
Bagagem, de alguns
Grandes pesares,
Que mesmo querendo MUITO
Simplesmente não consigo
PERDOAR.
Cynthia maio/2008
sábado, 17 de maio de 2008
Oxalá chegue logo...
Oxalá eu entenda...
Tanto tempo perdido,
Tanto amor confundido,
Tantas brigas sem razão.
Oxalá eu perdoe...
As atitudes insensatas, exageradas,
Totalmente desnecessárias.
A falta de compaixão.
Oxalá eu aceite...
Ter me iludido tanto,
Ter acreditado tanto,
Apenas num olhar.
Oxalá passe logo...
O tempo da mágoa,
Do ressentimento,
Do desencanto.
Oxalá chegue logo...
O Amor maduro, sereno e companheiro.
Que a vida, enfim... dê trégua
Para o meu coração.
Oxalá!
Cynthia maio/2008
Tanto tempo perdido,
Tanto amor confundido,
Tantas brigas sem razão.
Oxalá eu perdoe...
As atitudes insensatas, exageradas,
Totalmente desnecessárias.
A falta de compaixão.
Oxalá eu aceite...
Ter me iludido tanto,
Ter acreditado tanto,
Apenas num olhar.
Oxalá passe logo...
O tempo da mágoa,
Do ressentimento,
Do desencanto.
Oxalá chegue logo...
O Amor maduro, sereno e companheiro.
Que a vida, enfim... dê trégua
Para o meu coração.
Oxalá!
Cynthia maio/2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
Elogio a leveza...
Ufa!!
Como a gente se esquece da leveza.
Ficamos tão envolvidos com o trânsito pesado, as contas pesadas, pessoas pesadas...que nos esquecemos o quanto a vida pode ser leve.
LEVEZA URGENTE!!!
Como a gente se esquece da leveza.
Ficamos tão envolvidos com o trânsito pesado, as contas pesadas, pessoas pesadas...que nos esquecemos o quanto a vida pode ser leve.
LEVEZA URGENTE!!!
VINÍCIUS DE MORAES para mim e para todos!!!
Suas poesias, letras e músicas são maravilhosas!!!
Mas a BELEZA e a LEVEZA do seu espírito são urgentes para sobrevivermos nos dias de hoje.
Para tentarmos evitar palavras e "gestos desnecessários".
Todos os depoimentos que vejo sobre ele têm em comum dois aspectos:
o sorriso de quem fala e a reincidente leveza de Vinícius.
Ele sim, foi uma pessoa leve.
Segundo Affonso Romano Sant'Anna:
"Vinícius era tão leve que chegava a ser leviano na gravidade de suas paixões".
Ferreira Gullar disse que :
" Vinícius ajudou o brasileiro a ser feliz" devido a sua leveza, pois de acordo com Gullar:
" a vida é uma invenção, ou você inventa para o BEM, ou inventa para o MAL e Vinícius sempre, sempre inventava para o BEM, era leve e engraçado..."
Em uma de suas crônicas (cujo título plagio, com todo respeito), Sant'Anna fala de um texto que conta uma história muito boa sobre Vinícius e o seu airoso espírito leve.
Segue o trecho:
"Era um texto recuperado por Genetton Moraes, que falava de três daqueles seres leves, levianos: Vinícius, Otto e Antônio Maria. Era o texto de uma entrevista dada por Vinícius ao Otto, para o Jornal da Globo, quando esse era também um jornal mais leve. Aliás, quando a televisão era mais leve, quando o pais era mais leve. Quando éramos mais leves e não sabíamos.
Vinícius narrou ao Otto que às vezes ele saía da boate Sacha’s de madrugada com o Antônio Maria e ficavam os dois andando pelo Leblon para farejar com curiosidade canina que caminhos os cachorros vadios da madrugada seguiam. Vejam, houve um tempo em que se podia andar angelicamente de madrugada pelas ruas do país para acompanhar franciscanamente cães vadios. E assim, chegaram ambos a Copacabana onde, de repente, viram um estranho aglomerado de pessoas na areia, às seis da manhã. Pensaram que era afogamento, mas perceberam que o grupo levantava ao mesmo tempo as pernas ou os braços. Eram ginastas.
Perplexos, Maria e Vinicius se dizem:
-Devem ser nórdicos!
E Maria que chamava sempre Vinícius de Poesia, diz:
- “Poesia, vamos fazer aqui um juramento”. Qual juramento, indaga Vinícius.
E Maria: “Vamos jurar que nós nunca faremos um gesto desnecessário”...
Foi uma geração de frasistas geniais. Não era só o Otto, que recebeu de Nelson Rodrigues a alcunha de “genial frasista de São João del Rei”. Eram todos frasistas. A vida, uma amizade, um amor por uma frase. Rubem Braga que vivia tartamudeando palavras, não pesava nada. E um dia quando alguém, talvez Danuza Leão, falava umas coisas pesadas sobre um ex-amante, Rubem advertiu: “Não cuspa no prato que te comeu”.
Essas pessoas eram muito o espírito de uma geração, de uma época do Rio e do Brasil. Também com um presidente leve como Juscelino, que de tão leve vivia valsando e que botou em aviões uma cidade inteira levando-a para o planalto central, com ele tudo ficava mais fácil e mais leve. "
Foi uma geração de frasistas geniais. Não era só o Otto, que recebeu de Nelson Rodrigues a alcunha de “genial frasista de São João del Rei”. Eram todos frasistas. A vida, uma amizade, um amor por uma frase. Rubem Braga que vivia tartamudeando palavras, não pesava nada. E um dia quando alguém, talvez Danuza Leão, falava umas coisas pesadas sobre um ex-amante, Rubem advertiu: “Não cuspa no prato que te comeu”.
Essas pessoas eram muito o espírito de uma geração, de uma época do Rio e do Brasil. Também com um presidente leve como Juscelino, que de tão leve vivia valsando e que botou em aviões uma cidade inteira levando-a para o planalto central, com ele tudo ficava mais fácil e mais leve. "
Referência:
Sant'Anna, Affonso Romano de, 1937 - Tempo de delicadeza - Porto Alegre: L&PM, 2007.
domingo, 11 de maio de 2008
E eles se foram...
E eles se foram.
Eles que por tanto tempo estiveram por aqui.
Eles que por tanto tempo estiveram por aqui.
O medo já não é mais companhia.
A tristeza, só aparece como conseqüência de uma emoção,
porque no fundo, mesmo sendo boa,
toda emoção é um pouco triste.
A raiva, a revolta morreram de inanição.
A crueldade perdeu-se do seu algoz.
As decepções, frustrações e rejeições foram incineradas pela Lucidez.
A agonia, os tormentos e o desespero foram aniquilados pelo Equilíbrio.
A tristeza, só aparece como conseqüência de uma emoção,
porque no fundo, mesmo sendo boa,
toda emoção é um pouco triste.
A raiva, a revolta morreram de inanição.
A crueldade perdeu-se do seu algoz.
As decepções, frustrações e rejeições foram incineradas pela Lucidez.
A agonia, os tormentos e o desespero foram aniquilados pelo Equilíbrio.
A mente aquietou-se.
E a Esperança mansamente se instalou.
Um novo tempo... tempo de paz,
E a Esperança mansamente se instalou.
Um novo tempo... tempo de paz,
para o meu coração, pensamentos, para a minha vida.
E eles, todos eles, enfim...
E eles, todos eles, enfim...
foram levados, foram embora... junto com você.
Cynthia ( maio/2008)
quinta-feira, 8 de maio de 2008
"Vai, Carlos! ser gauche na vida."
Adoro esse minerim carioca... itabirano "de alma de ferro", que tem "o hábito de sofrer, só porque o diverte".
"Gauche" na vida, quer dizer, acanhado, inepto...enfim às avessas, o "torto" que está à margem da realidade e que com ela não consegue se comunicar. Era como que ele se via, e é por isso que me identifico com ele.
Tenho como lema a sua deixa...
"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida.
Mas a poesia (inexplicável) da vida. "
Precioso, preciso nos versos livres e brancos.
"Estilo sublime", "estilo mesclado", refinadíssimo.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Falou que o Amor tem seu tempo, que é "privilégio dos maduros", que "Amor começa tarde"... e que "se aprende no limite".
E que "apesar de todas as suas contradições, o amor não perde a sua condição de sentimento maior" ...
..." A ausência do amor é a negação da própria vida."
Ler seus poemas devolvem-me a esperança, a fé de que não há nada mais o que fazer "senão, entre criaturas amar".
Poesias preferidas:
AMOR E SEU TEMPO
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta,
e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma avede rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
"Gauche" na vida, quer dizer, acanhado, inepto...enfim às avessas, o "torto" que está à margem da realidade e que com ela não consegue se comunicar. Era como que ele se via, e é por isso que me identifico com ele.
Tenho como lema a sua deixa...
"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida.
Mas a poesia (inexplicável) da vida. "
Precioso, preciso nos versos livres e brancos.
"Estilo sublime", "estilo mesclado", refinadíssimo.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Falou que o Amor tem seu tempo, que é "privilégio dos maduros", que "Amor começa tarde"... e que "se aprende no limite".
E que "apesar de todas as suas contradições, o amor não perde a sua condição de sentimento maior" ...
..." A ausência do amor é a negação da própria vida."
Ler seus poemas devolvem-me a esperança, a fé de que não há nada mais o que fazer "senão, entre criaturas amar".
Poesias preferidas:
AMOR E SEU TEMPO
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta,
e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma avede rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
DESTRUIÇÃO
Os amantes se amam cruelmente
e por se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são?
Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo
volve a nada.
Nada.
Ninguém.
Amor, puro fantasma
que os passeia de leve,
assim a cobra se imprime
na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos
para sempre.
deixaram de existir,
mas o existido
continua a doer
eternamente.
MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede.
Nada espera,
mas do destino
vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento
e de beleza.
Por aquelas
mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte
o tempo desmorona
aquilo que foi grande
e deslumbrante,
o antigo amor,
porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente,
mas pobre de esperança.
Mais triste?
Não.
Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo
em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas
o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta,
não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra
teus olhos
resplandecem enormes.
És todo certeza,
já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice,
que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais
que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas
que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo
em que não adianta morrer.
Chegou um tempo
em que a vida é uma ordem.
A vida apenas,
sem mistificação.
Referência:
Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987.
Carlos Drummond de Andrade/seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico por Rita de Cássia Barbosa - 2 ed. - São Paulo: Nova Cultural, 1988.
( Literatura Comentada)
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
DESTRUIÇÃO
Os amantes se amam cruelmente
e por se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são?
Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo
volve a nada.
Nada.
Ninguém.
Amor, puro fantasma
que os passeia de leve,
assim a cobra se imprime
na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos
para sempre.
deixaram de existir,
mas o existido
continua a doer
eternamente.
MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede.
Nada espera,
mas do destino
vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento
e de beleza.
Por aquelas
mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte
o tempo desmorona
aquilo que foi grande
e deslumbrante,
o antigo amor,
porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente,
mas pobre de esperança.
Mais triste?
Não.
Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo
em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas
o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta,
não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra
teus olhos
resplandecem enormes.
És todo certeza,
já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice,
que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais
que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes,
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas
que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo
em que não adianta morrer.
Chegou um tempo
em que a vida é uma ordem.
A vida apenas,
sem mistificação.
Referência:
Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987.
Carlos Drummond de Andrade/seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico por Rita de Cássia Barbosa - 2 ed. - São Paulo: Nova Cultural, 1988.
( Literatura Comentada)
sábado, 3 de maio de 2008
O tempo e a dor da palavra...
Tempo que vai passar...
Passe logo.
Bem depressa.
Para que logo eu encontre a minha paz, o meu sossego.
Passe e leve a minha dor.
Dor de palavras, das palavras.
Quem dera fosse dor física que simplesmente passa.
Dor de palavra não é assim, ela feri, demora, fica.
Palavras, apenas as palavras fazem isso.
Tão efêmeras e tão perenes.
Que podem trazer a doçura, a felicidade.
Que podem tirar o chão, a coragem.
O tempo conversa com elas.
Suaviaviza seus efeitos.
O tempo que as trouxe...que as leve.
Para bem longe dos meus pensamentos e lembranças.
Que elas cheguem ao esquecimento...
E de lá, mandem-me de volta a esperança.
Cynthia ( maio/2008)
Passe logo.
Bem depressa.
Para que logo eu encontre a minha paz, o meu sossego.
Passe e leve a minha dor.
Dor de palavras, das palavras.
Quem dera fosse dor física que simplesmente passa.
Dor de palavra não é assim, ela feri, demora, fica.
Palavras, apenas as palavras fazem isso.
Tão efêmeras e tão perenes.
Que podem trazer a doçura, a felicidade.
Que podem tirar o chão, a coragem.
O tempo conversa com elas.
Suaviaviza seus efeitos.
O tempo que as trouxe...que as leve.
Para bem longe dos meus pensamentos e lembranças.
Que elas cheguem ao esquecimento...
E de lá, mandem-me de volta a esperança.
Cynthia ( maio/2008)
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Nelson Rodrigues... flor de obsessão
Não sei definir o que sinto quando leio Nelson Rodrigues... é uma relação tragicomica, saio dos risos e chego a querer enforcá-lo...rsrsrs...em "A vida como ela é ...", O óbvio ululante admiro-o tanto que seria capaz de ajoelhar-me aos seus pés; porém outras vezes, o mais fomoso dos Reacionários me enfurece...não sei não, mas acho que ele teria gostado desse tipo de relação com uma fã...rsrsrs...pretensiosa eu?? Batata!!!
Gosto muito dessa história sobre " A vida como ela é..."
"Em 1951, o jornalista Samuel Wainer convidou Nelson Rodrigues para trabalhar na Última Hora, assinando uma coluna policial. Sugeriu que a primeira falasse de um casal que morrera num desastre de avião partindo para a lua-de-mel, uma notícia que o jornal tinha dado no dia anterior. Nelson sentou à máquina e metralhou em alguns minutos a dramática história dos dois pombinhos. Como Wainer contaria mais tarde, achou o texto uma "obra-prima, mas Nelson tinha modificado nomes e situações". Chamou-o e pediu que fosse fiel à realidade. E ouviu a resposta: "Não, Samuel, a realidade não é essa. A vida como ela é é outra coisa." Wainer entendeu e resolveu apostar. Queria que a coluna levasse o nome de "Atire a primeira pedra", mas Nelson preferiu "A vida como ela é..."
fonte:http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/literatura/lit15.htm
Também gosto dessa: a fomosa entrevista de Geneton Moraes Neto durante o jogo do Brasil x Peru, seguem recortes:
"Quando a mulher avisa em voz alta que “o repórter de Pernambuco” estava na porta da sala, Nélson ergue os braços, agita as mãos, saúda o ilustre desconhecido com uma exclamação calorosa, como se reeencontrasse um amigo de infância : “Conterrâneo ! Conterrâneo ! “.O cumprimento efusivo não afasta o temor de que Nélson tenha cometido um pequeno equívoco : ao marcar a entrevista para aquele horário, ele bem que pode ter se esquecido de que a seleção brasileira iria entrar em campo dentro de instantes. A hipótese pode parecer absurda, mas quem sou eu para menosprezar as possíveis excentricidades de nosso herói ?Tento uma solução alternativa para escapar de um vexame : digo que posso voltar depois para gravar a entrevista; não quero importuná-lo na hora do jogo. Teatral, Nélson Rodrigues repousa a mão direita sobre o peito, como se sugerisse uma pontada no coração. Olha para a televisão, pede à mulher : “Tirem o som desse aparelho ! Tirem o som desse aparelho !.O Brasil me faz mal ! O Fluminense me faz mal !”. A mulher e a irmã de Nélson riem da cena teatral. Hiperbólico, épico, exagerado, o homem é uma fábrica de tiradas dramáticas. Desconfio de que acabo de me transformar em solitário e privilegiadíssimo espectador de um espetáculo teatral chamado Nélson Falcão Rodrigues, encenado pelo próprio autor...
...Assim, este forasteiro se vê de repente na condição de coadjuvante de uma cena surrealista : diante de uma TV sem som que transmitia o jogo da seleção brasileira contra o Peru, o autor das mais brilhantes crônicas já escritas sobre o futebol brasileiro simplesmente tira os olhos do vídeo para responder ao interrogatório de um visitante que chegou em hora inconveniente, munido de um gravador e um bloco de anotações...
....Fui testemunha ocular de uma verdade inapelável : Nélson Rodrigues era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. A Nélson Rodrigues, importava a escalação do adjetivo certo na frase certa. Pouco interessava a distribuição de beques ou atacantes no retângulo verde. O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos “idiotas da objetividade” – estes pobres seres que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos.A missão que Nélson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra : traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol. Para que, então, perder tempo com miudezas ? Para que ouvir o narrador descrever o jogo na TV ? Para que saber os nomes dos jogadores do Peru ? Para que saber se o meio-de-campo do Brasil estava ou não estava inspirado ?-“Em futebol , o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana. Às vezes, num córner bel ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”, ele escreveu uma vez.Nélson Rodrigues preferia se ocupar de questões metafísicas – como, por exemplo, a inapetência de nossos escritores brasileiros em tratar do futebol. Numa de suas tiradas clássicas, reclamou :- Nossa literatura ignora o futebol -e repito : nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral...
...Alheio a esta fraqueza nacional, Nélson parece distante da disputa que se desenrola, ali, diante de nós, no vídeo da TV, entre a seleção brasileira e o escrete peruano. Faz ao repórter uma pergunta incrível : “Quem é o nosso adversário hoje ? “. Informo que é o Peru.Fique registrado para a posteridade que o maior cronista do futebol brasileiro não precisava necessariamente saber quem era nosso adversário.Quando Zico faz um a zero, aos trinta e quatro minutos do primeiro tempo, Nélson interrompe a entrevista para inaugurar, aos brados, uma nova expressão exclamativa :- Que coisa beleza ! Que coisa beleza !Depois, pede à família : “Pessoal,com licença dos nossos visitantes,vamos fechar essa máquina porque já estou começando a ficar nervoso”. Aos não iniciados nas sutilezas do dialeto rodrigueano, esclareça-se que “fechar a máquina” significa desligar a televisão – o que, aliás, não foi feito. Nélson dispara, então, um julgamento entusiasmado sobre o escrete dirigido por Cláudio Coutinho :- Mas esses rapazes são uns gênios ! Uns gênios !O repórter seria novamente surpreendido. Nélson já perguntara quem era “nosso adversário”. Agora, ao ver o replay do gol recém-marcado, toma um susto : “Mas já houve dois gols ? “. Digo a ele que não : é apenas a repetição do primeiro gol. O placar é um a zero. O gênio da raça concorda com um “ah, sim !”. Teria dois outros motivos para vibrar : o mineiro Reinaldo – que entraria no lugar de Nunes - faria dois gols, aos 20 e aos 40 minutos do segundo tempo, para fechar o placar : Brasil 3 x O Peru.(Corro à banca no dia seguinte para comprar o jornal. O que diabos Nélson Rodrigues teria escrito sobre o jogo que eu não o deixara ver ? Eis :- Vejam vocês como o futebol é estranho – às vezes maligno e feroz. Mas não quero ter fantasias esplêndidas. O jogo Brasil x Peru, ontem, no Mário Filho, não assustou a gente. Diz o nosso João Saldanha : “O Brasil fez seu jogo, jogo brasileiro”. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um. Outra coisa formidável : na semana passada, um craque nosso veio me dizer : “Nélson, é preciso que você não se esqueça : ao cretino fundamental, nem água”. O jogo foi lindo”.Penso com meus botões que Nélson não precisou esperar pelo início do jogo para escrever a crônica. Com certeza, despachou o texto para o jornal antes da chegada do repórter intruso. Os “idiotas da objetividade” se encarregariam de registrar, nas páginas esportivas, o jogo real. Porque o jogo de Nélson seria lindo de qualquer maneira. E aos cretinos fundamentais ? Aos cretinos fundamentais, nem água....
...A lista de surpresas nessa tarde no Leme não se esgotaria aí. Quando deu por encerrada a entrevista, Nélson pergunta ao repórter : “E então, você me achou muito reacionário ? “. Não, claro que não....
Fonte:http://www.geneton.com.br/archives/000012.html
Uma crônica...
Delicado
Nelson Rodrigues
Primeiro, o casal teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:
— Papagaio!
Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso.
Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam: "Entrega os pontos, que é mais negócio!"
Seu Macário respirou fundo:— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem!
Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos, tranqüila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais. Digo "sofria mais" porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma chapa dupla.
Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!
NOVO PARTO
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:— Meus dentes estão doendo!E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura.
A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha.
Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:
— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!
EUSEBIOZINHO
Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar. Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: "Levou algum ponto?". Ralharam:— Sossega o periquito!O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: "Tenho um filho homem. Agora posso morrer!". E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa.
Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo:
— Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!
FLOR DE RAPAZ
Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam: "Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!". O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:— Você tem namorada?— Não.— Nem teve? — Nem tive. Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com os vaticínios mais funestos: "Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?". Virou-se para d. Flávia:
— Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá!
Implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição.
Apontava:
— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!
PROBLEMA MATRIMONIAL
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam: "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:
— Está muito bem assim!A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce.
Mas a mãe chorou, replicou:
"Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim".
Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:
— Casar pra quê? Por quê? E vocês? — Interpela as irmãs: — Por que vocês não se casaram?
A resposta foi vaga, insatisfatória:
— Mulher é outra coisa. Diferente.
A NAMORADA
Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu: "Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!". Ocorreu, então, o seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço. O desgraçado crispou-se, eletrizado:
— Não faz assim que eu sinto cócegas!
O VESTIDO DE NOIVA
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?". A reação do rapaz foi surpreendente.Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:
— Que beleza, meu Deus! Que maravilha!Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!
0 LADRÃO
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!". Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou:
— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!
Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".
O texto acima foi extraído do livro "A vida como ela é...", Companhia das Letras- São Paulo, 1992, pág. 39
Indicação: site Releituras.com
http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp
Gosto muito dessa história sobre " A vida como ela é..."
"Em 1951, o jornalista Samuel Wainer convidou Nelson Rodrigues para trabalhar na Última Hora, assinando uma coluna policial. Sugeriu que a primeira falasse de um casal que morrera num desastre de avião partindo para a lua-de-mel, uma notícia que o jornal tinha dado no dia anterior. Nelson sentou à máquina e metralhou em alguns minutos a dramática história dos dois pombinhos. Como Wainer contaria mais tarde, achou o texto uma "obra-prima, mas Nelson tinha modificado nomes e situações". Chamou-o e pediu que fosse fiel à realidade. E ouviu a resposta: "Não, Samuel, a realidade não é essa. A vida como ela é é outra coisa." Wainer entendeu e resolveu apostar. Queria que a coluna levasse o nome de "Atire a primeira pedra", mas Nelson preferiu "A vida como ela é..."
fonte:http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/literatura/lit15.htm
Também gosto dessa: a fomosa entrevista de Geneton Moraes Neto durante o jogo do Brasil x Peru, seguem recortes:
"Quando a mulher avisa em voz alta que “o repórter de Pernambuco” estava na porta da sala, Nélson ergue os braços, agita as mãos, saúda o ilustre desconhecido com uma exclamação calorosa, como se reeencontrasse um amigo de infância : “Conterrâneo ! Conterrâneo ! “.O cumprimento efusivo não afasta o temor de que Nélson tenha cometido um pequeno equívoco : ao marcar a entrevista para aquele horário, ele bem que pode ter se esquecido de que a seleção brasileira iria entrar em campo dentro de instantes. A hipótese pode parecer absurda, mas quem sou eu para menosprezar as possíveis excentricidades de nosso herói ?Tento uma solução alternativa para escapar de um vexame : digo que posso voltar depois para gravar a entrevista; não quero importuná-lo na hora do jogo. Teatral, Nélson Rodrigues repousa a mão direita sobre o peito, como se sugerisse uma pontada no coração. Olha para a televisão, pede à mulher : “Tirem o som desse aparelho ! Tirem o som desse aparelho !.O Brasil me faz mal ! O Fluminense me faz mal !”. A mulher e a irmã de Nélson riem da cena teatral. Hiperbólico, épico, exagerado, o homem é uma fábrica de tiradas dramáticas. Desconfio de que acabo de me transformar em solitário e privilegiadíssimo espectador de um espetáculo teatral chamado Nélson Falcão Rodrigues, encenado pelo próprio autor...
...Assim, este forasteiro se vê de repente na condição de coadjuvante de uma cena surrealista : diante de uma TV sem som que transmitia o jogo da seleção brasileira contra o Peru, o autor das mais brilhantes crônicas já escritas sobre o futebol brasileiro simplesmente tira os olhos do vídeo para responder ao interrogatório de um visitante que chegou em hora inconveniente, munido de um gravador e um bloco de anotações...
....Fui testemunha ocular de uma verdade inapelável : Nélson Rodrigues era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. A Nélson Rodrigues, importava a escalação do adjetivo certo na frase certa. Pouco interessava a distribuição de beques ou atacantes no retângulo verde. O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos “idiotas da objetividade” – estes pobres seres que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos.A missão que Nélson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra : traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol. Para que, então, perder tempo com miudezas ? Para que ouvir o narrador descrever o jogo na TV ? Para que saber os nomes dos jogadores do Peru ? Para que saber se o meio-de-campo do Brasil estava ou não estava inspirado ?-“Em futebol , o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana. Às vezes, num córner bel ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”, ele escreveu uma vez.Nélson Rodrigues preferia se ocupar de questões metafísicas – como, por exemplo, a inapetência de nossos escritores brasileiros em tratar do futebol. Numa de suas tiradas clássicas, reclamou :- Nossa literatura ignora o futebol -e repito : nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral...
...Alheio a esta fraqueza nacional, Nélson parece distante da disputa que se desenrola, ali, diante de nós, no vídeo da TV, entre a seleção brasileira e o escrete peruano. Faz ao repórter uma pergunta incrível : “Quem é o nosso adversário hoje ? “. Informo que é o Peru.Fique registrado para a posteridade que o maior cronista do futebol brasileiro não precisava necessariamente saber quem era nosso adversário.Quando Zico faz um a zero, aos trinta e quatro minutos do primeiro tempo, Nélson interrompe a entrevista para inaugurar, aos brados, uma nova expressão exclamativa :- Que coisa beleza ! Que coisa beleza !Depois, pede à família : “Pessoal,com licença dos nossos visitantes,vamos fechar essa máquina porque já estou começando a ficar nervoso”. Aos não iniciados nas sutilezas do dialeto rodrigueano, esclareça-se que “fechar a máquina” significa desligar a televisão – o que, aliás, não foi feito. Nélson dispara, então, um julgamento entusiasmado sobre o escrete dirigido por Cláudio Coutinho :- Mas esses rapazes são uns gênios ! Uns gênios !O repórter seria novamente surpreendido. Nélson já perguntara quem era “nosso adversário”. Agora, ao ver o replay do gol recém-marcado, toma um susto : “Mas já houve dois gols ? “. Digo a ele que não : é apenas a repetição do primeiro gol. O placar é um a zero. O gênio da raça concorda com um “ah, sim !”. Teria dois outros motivos para vibrar : o mineiro Reinaldo – que entraria no lugar de Nunes - faria dois gols, aos 20 e aos 40 minutos do segundo tempo, para fechar o placar : Brasil 3 x O Peru.(Corro à banca no dia seguinte para comprar o jornal. O que diabos Nélson Rodrigues teria escrito sobre o jogo que eu não o deixara ver ? Eis :- Vejam vocês como o futebol é estranho – às vezes maligno e feroz. Mas não quero ter fantasias esplêndidas. O jogo Brasil x Peru, ontem, no Mário Filho, não assustou a gente. Diz o nosso João Saldanha : “O Brasil fez seu jogo, jogo brasileiro”. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um. Outra coisa formidável : na semana passada, um craque nosso veio me dizer : “Nélson, é preciso que você não se esqueça : ao cretino fundamental, nem água”. O jogo foi lindo”.Penso com meus botões que Nélson não precisou esperar pelo início do jogo para escrever a crônica. Com certeza, despachou o texto para o jornal antes da chegada do repórter intruso. Os “idiotas da objetividade” se encarregariam de registrar, nas páginas esportivas, o jogo real. Porque o jogo de Nélson seria lindo de qualquer maneira. E aos cretinos fundamentais ? Aos cretinos fundamentais, nem água....
...A lista de surpresas nessa tarde no Leme não se esgotaria aí. Quando deu por encerrada a entrevista, Nélson pergunta ao repórter : “E então, você me achou muito reacionário ? “. Não, claro que não....
Fonte:http://www.geneton.com.br/archives/000012.html
Uma crônica...
Delicado
Nelson Rodrigues
Primeiro, o casal teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:
— Papagaio!
Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso.
Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam: "Entrega os pontos, que é mais negócio!"
Seu Macário respirou fundo:— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem!
Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos, tranqüila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais. Digo "sofria mais" porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma chapa dupla.
Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!
NOVO PARTO
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:— Meus dentes estão doendo!E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura.
A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha.
Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:
— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!
EUSEBIOZINHO
Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar. Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: "Levou algum ponto?". Ralharam:— Sossega o periquito!O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: "Tenho um filho homem. Agora posso morrer!". E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa.
Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo:
— Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!
FLOR DE RAPAZ
Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam: "Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!". O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:— Você tem namorada?— Não.— Nem teve? — Nem tive. Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com os vaticínios mais funestos: "Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?". Virou-se para d. Flávia:
— Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá!
Implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição.
Apontava:
— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!
PROBLEMA MATRIMONIAL
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam: "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:
— Está muito bem assim!A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce.
Mas a mãe chorou, replicou:
"Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim".
Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:
— Casar pra quê? Por quê? E vocês? — Interpela as irmãs: — Por que vocês não se casaram?
A resposta foi vaga, insatisfatória:
— Mulher é outra coisa. Diferente.
A NAMORADA
Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu: "Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!". Ocorreu, então, o seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço. O desgraçado crispou-se, eletrizado:
— Não faz assim que eu sinto cócegas!
O VESTIDO DE NOIVA
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?". A reação do rapaz foi surpreendente.Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:
— Que beleza, meu Deus! Que maravilha!Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!
0 LADRÃO
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!". Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou:
— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!
Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".
O texto acima foi extraído do livro "A vida como ela é...", Companhia das Letras- São Paulo, 1992, pág. 39
Indicação: site Releituras.com
http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp
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