Não sei definir o que sinto quando leio Nelson Rodrigues... é uma relação tragicomica, saio dos risos e chego a querer enforcá-lo...rsrsrs...em "A vida como ela é ...", O óbvio ululante admiro-o tanto que seria capaz de ajoelhar-me aos seus pés; porém outras vezes, o mais fomoso dos Reacionários me enfurece...não sei não, mas acho que ele teria gostado desse tipo de relação com uma fã...rsrsrs...pretensiosa eu?? Batata!!!
Gosto muito dessa história sobre " A vida como ela é..."
"Em 1951, o jornalista Samuel Wainer convidou Nelson Rodrigues para trabalhar na Última Hora, assinando uma coluna policial. Sugeriu que a primeira falasse de um casal que morrera num desastre de avião partindo para a lua-de-mel, uma notícia que o jornal tinha dado no dia anterior. Nelson sentou à máquina e metralhou em alguns minutos a dramática história dos dois pombinhos. Como Wainer contaria mais tarde, achou o texto uma "obra-prima, mas Nelson tinha modificado nomes e situações". Chamou-o e pediu que fosse fiel à realidade. E ouviu a resposta: "Não, Samuel, a realidade não é essa. A vida como ela é é outra coisa." Wainer entendeu e resolveu apostar. Queria que a coluna levasse o nome de "Atire a primeira pedra", mas Nelson preferiu "A vida como ela é..."
fonte:http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/literatura/lit15.htm
Também gosto dessa: a fomosa entrevista de Geneton Moraes Neto durante o jogo do Brasil x Peru, seguem recortes:
"Quando a mulher avisa em voz alta que “o repórter de Pernambuco” estava na porta da sala, Nélson ergue os braços, agita as mãos, saúda o ilustre desconhecido com uma exclamação calorosa, como se reeencontrasse um amigo de infância : “Conterrâneo ! Conterrâneo ! “.O cumprimento efusivo não afasta o temor de que Nélson tenha cometido um pequeno equívoco : ao marcar a entrevista para aquele horário, ele bem que pode ter se esquecido de que a seleção brasileira iria entrar em campo dentro de instantes. A hipótese pode parecer absurda, mas quem sou eu para menosprezar as possíveis excentricidades de nosso herói ?Tento uma solução alternativa para escapar de um vexame : digo que posso voltar depois para gravar a entrevista; não quero importuná-lo na hora do jogo. Teatral, Nélson Rodrigues repousa a mão direita sobre o peito, como se sugerisse uma pontada no coração. Olha para a televisão, pede à mulher : “Tirem o som desse aparelho ! Tirem o som desse aparelho !.O Brasil me faz mal ! O Fluminense me faz mal !”. A mulher e a irmã de Nélson riem da cena teatral. Hiperbólico, épico, exagerado, o homem é uma fábrica de tiradas dramáticas. Desconfio de que acabo de me transformar em solitário e privilegiadíssimo espectador de um espetáculo teatral chamado Nélson Falcão Rodrigues, encenado pelo próprio autor...
...Assim, este forasteiro se vê de repente na condição de coadjuvante de uma cena surrealista : diante de uma TV sem som que transmitia o jogo da seleção brasileira contra o Peru, o autor das mais brilhantes crônicas já escritas sobre o futebol brasileiro simplesmente tira os olhos do vídeo para responder ao interrogatório de um visitante que chegou em hora inconveniente, munido de um gravador e um bloco de anotações...
....Fui testemunha ocular de uma verdade inapelável : Nélson Rodrigues era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. A Nélson Rodrigues, importava a escalação do adjetivo certo na frase certa. Pouco interessava a distribuição de beques ou atacantes no retângulo verde. O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos “idiotas da objetividade” – estes pobres seres que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos.A missão que Nélson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra : traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol. Para que, então, perder tempo com miudezas ? Para que ouvir o narrador descrever o jogo na TV ? Para que saber os nomes dos jogadores do Peru ? Para que saber se o meio-de-campo do Brasil estava ou não estava inspirado ?-“Em futebol , o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana. Às vezes, num córner bel ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”, ele escreveu uma vez.Nélson Rodrigues preferia se ocupar de questões metafísicas – como, por exemplo, a inapetência de nossos escritores brasileiros em tratar do futebol. Numa de suas tiradas clássicas, reclamou :- Nossa literatura ignora o futebol -e repito : nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral...
...Alheio a esta fraqueza nacional, Nélson parece distante da disputa que se desenrola, ali, diante de nós, no vídeo da TV, entre a seleção brasileira e o escrete peruano. Faz ao repórter uma pergunta incrível : “Quem é o nosso adversário hoje ? “. Informo que é o Peru.Fique registrado para a posteridade que o maior cronista do futebol brasileiro não precisava necessariamente saber quem era nosso adversário.Quando Zico faz um a zero, aos trinta e quatro minutos do primeiro tempo, Nélson interrompe a entrevista para inaugurar, aos brados, uma nova expressão exclamativa :- Que coisa beleza ! Que coisa beleza !Depois, pede à família : “Pessoal,com licença dos nossos visitantes,vamos fechar essa máquina porque já estou começando a ficar nervoso”. Aos não iniciados nas sutilezas do dialeto rodrigueano, esclareça-se que “fechar a máquina” significa desligar a televisão – o que, aliás, não foi feito. Nélson dispara, então, um julgamento entusiasmado sobre o escrete dirigido por Cláudio Coutinho :- Mas esses rapazes são uns gênios ! Uns gênios !O repórter seria novamente surpreendido. Nélson já perguntara quem era “nosso adversário”. Agora, ao ver o replay do gol recém-marcado, toma um susto : “Mas já houve dois gols ? “. Digo a ele que não : é apenas a repetição do primeiro gol. O placar é um a zero. O gênio da raça concorda com um “ah, sim !”. Teria dois outros motivos para vibrar : o mineiro Reinaldo – que entraria no lugar de Nunes - faria dois gols, aos 20 e aos 40 minutos do segundo tempo, para fechar o placar : Brasil 3 x O Peru.(Corro à banca no dia seguinte para comprar o jornal. O que diabos Nélson Rodrigues teria escrito sobre o jogo que eu não o deixara ver ? Eis :- Vejam vocês como o futebol é estranho – às vezes maligno e feroz. Mas não quero ter fantasias esplêndidas. O jogo Brasil x Peru, ontem, no Mário Filho, não assustou a gente. Diz o nosso João Saldanha : “O Brasil fez seu jogo, jogo brasileiro”. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um. Outra coisa formidável : na semana passada, um craque nosso veio me dizer : “Nélson, é preciso que você não se esqueça : ao cretino fundamental, nem água”. O jogo foi lindo”.Penso com meus botões que Nélson não precisou esperar pelo início do jogo para escrever a crônica. Com certeza, despachou o texto para o jornal antes da chegada do repórter intruso. Os “idiotas da objetividade” se encarregariam de registrar, nas páginas esportivas, o jogo real. Porque o jogo de Nélson seria lindo de qualquer maneira. E aos cretinos fundamentais ? Aos cretinos fundamentais, nem água....
...A lista de surpresas nessa tarde no Leme não se esgotaria aí. Quando deu por encerrada a entrevista, Nélson pergunta ao repórter : “E então, você me achou muito reacionário ? “. Não, claro que não....
Fonte:http://www.geneton.com.br/archives/000012.html
Uma crônica...
Delicado
Nelson Rodrigues
Primeiro, o casal teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:
— Papagaio!
Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso.
Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam: "Entrega os pontos, que é mais negócio!"
Seu Macário respirou fundo:— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem!
Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos, tranqüila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais. Digo "sofria mais" porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma chapa dupla.
Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!
NOVO PARTO
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:— Meus dentes estão doendo!E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura.
A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha.
Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:
— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!
EUSEBIOZINHO
Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar. Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: "Levou algum ponto?". Ralharam:— Sossega o periquito!O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: "Tenho um filho homem. Agora posso morrer!". E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa.
Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo:
— Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!
FLOR DE RAPAZ
Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam: "Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!". O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:— Você tem namorada?— Não.— Nem teve? — Nem tive. Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com os vaticínios mais funestos: "Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?". Virou-se para d. Flávia:
— Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá!
Implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição.
Apontava:
— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!
PROBLEMA MATRIMONIAL
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam: "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:
— Está muito bem assim!A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce.
Mas a mãe chorou, replicou:
"Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim".
Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:
— Casar pra quê? Por quê? E vocês? — Interpela as irmãs: — Por que vocês não se casaram?
A resposta foi vaga, insatisfatória:
— Mulher é outra coisa. Diferente.
A NAMORADA
Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu: "Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!". Ocorreu, então, o seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço. O desgraçado crispou-se, eletrizado:
— Não faz assim que eu sinto cócegas!
O VESTIDO DE NOIVA
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?". A reação do rapaz foi surpreendente.Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:
— Que beleza, meu Deus! Que maravilha!Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!
0 LADRÃO
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!". Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou:
— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!
Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".
O texto acima foi extraído do livro "A vida como ela é...", Companhia das Letras- São Paulo, 1992, pág. 39
Indicação: site Releituras.com
http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp
Gosto muito dessa história sobre " A vida como ela é..."
"Em 1951, o jornalista Samuel Wainer convidou Nelson Rodrigues para trabalhar na Última Hora, assinando uma coluna policial. Sugeriu que a primeira falasse de um casal que morrera num desastre de avião partindo para a lua-de-mel, uma notícia que o jornal tinha dado no dia anterior. Nelson sentou à máquina e metralhou em alguns minutos a dramática história dos dois pombinhos. Como Wainer contaria mais tarde, achou o texto uma "obra-prima, mas Nelson tinha modificado nomes e situações". Chamou-o e pediu que fosse fiel à realidade. E ouviu a resposta: "Não, Samuel, a realidade não é essa. A vida como ela é é outra coisa." Wainer entendeu e resolveu apostar. Queria que a coluna levasse o nome de "Atire a primeira pedra", mas Nelson preferiu "A vida como ela é..."
fonte:http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/literatura/lit15.htm
Também gosto dessa: a fomosa entrevista de Geneton Moraes Neto durante o jogo do Brasil x Peru, seguem recortes:
"Quando a mulher avisa em voz alta que “o repórter de Pernambuco” estava na porta da sala, Nélson ergue os braços, agita as mãos, saúda o ilustre desconhecido com uma exclamação calorosa, como se reeencontrasse um amigo de infância : “Conterrâneo ! Conterrâneo ! “.O cumprimento efusivo não afasta o temor de que Nélson tenha cometido um pequeno equívoco : ao marcar a entrevista para aquele horário, ele bem que pode ter se esquecido de que a seleção brasileira iria entrar em campo dentro de instantes. A hipótese pode parecer absurda, mas quem sou eu para menosprezar as possíveis excentricidades de nosso herói ?Tento uma solução alternativa para escapar de um vexame : digo que posso voltar depois para gravar a entrevista; não quero importuná-lo na hora do jogo. Teatral, Nélson Rodrigues repousa a mão direita sobre o peito, como se sugerisse uma pontada no coração. Olha para a televisão, pede à mulher : “Tirem o som desse aparelho ! Tirem o som desse aparelho !.O Brasil me faz mal ! O Fluminense me faz mal !”. A mulher e a irmã de Nélson riem da cena teatral. Hiperbólico, épico, exagerado, o homem é uma fábrica de tiradas dramáticas. Desconfio de que acabo de me transformar em solitário e privilegiadíssimo espectador de um espetáculo teatral chamado Nélson Falcão Rodrigues, encenado pelo próprio autor...
...Assim, este forasteiro se vê de repente na condição de coadjuvante de uma cena surrealista : diante de uma TV sem som que transmitia o jogo da seleção brasileira contra o Peru, o autor das mais brilhantes crônicas já escritas sobre o futebol brasileiro simplesmente tira os olhos do vídeo para responder ao interrogatório de um visitante que chegou em hora inconveniente, munido de um gravador e um bloco de anotações...
....Fui testemunha ocular de uma verdade inapelável : Nélson Rodrigues era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. A Nélson Rodrigues, importava a escalação do adjetivo certo na frase certa. Pouco interessava a distribuição de beques ou atacantes no retângulo verde. O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos “idiotas da objetividade” – estes pobres seres que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos.A missão que Nélson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra : traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol. Para que, então, perder tempo com miudezas ? Para que ouvir o narrador descrever o jogo na TV ? Para que saber os nomes dos jogadores do Peru ? Para que saber se o meio-de-campo do Brasil estava ou não estava inspirado ?-“Em futebol , o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana. Às vezes, num córner bel ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”, ele escreveu uma vez.Nélson Rodrigues preferia se ocupar de questões metafísicas – como, por exemplo, a inapetência de nossos escritores brasileiros em tratar do futebol. Numa de suas tiradas clássicas, reclamou :- Nossa literatura ignora o futebol -e repito : nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral...
...Alheio a esta fraqueza nacional, Nélson parece distante da disputa que se desenrola, ali, diante de nós, no vídeo da TV, entre a seleção brasileira e o escrete peruano. Faz ao repórter uma pergunta incrível : “Quem é o nosso adversário hoje ? “. Informo que é o Peru.Fique registrado para a posteridade que o maior cronista do futebol brasileiro não precisava necessariamente saber quem era nosso adversário.Quando Zico faz um a zero, aos trinta e quatro minutos do primeiro tempo, Nélson interrompe a entrevista para inaugurar, aos brados, uma nova expressão exclamativa :- Que coisa beleza ! Que coisa beleza !Depois, pede à família : “Pessoal,com licença dos nossos visitantes,vamos fechar essa máquina porque já estou começando a ficar nervoso”. Aos não iniciados nas sutilezas do dialeto rodrigueano, esclareça-se que “fechar a máquina” significa desligar a televisão – o que, aliás, não foi feito. Nélson dispara, então, um julgamento entusiasmado sobre o escrete dirigido por Cláudio Coutinho :- Mas esses rapazes são uns gênios ! Uns gênios !O repórter seria novamente surpreendido. Nélson já perguntara quem era “nosso adversário”. Agora, ao ver o replay do gol recém-marcado, toma um susto : “Mas já houve dois gols ? “. Digo a ele que não : é apenas a repetição do primeiro gol. O placar é um a zero. O gênio da raça concorda com um “ah, sim !”. Teria dois outros motivos para vibrar : o mineiro Reinaldo – que entraria no lugar de Nunes - faria dois gols, aos 20 e aos 40 minutos do segundo tempo, para fechar o placar : Brasil 3 x O Peru.(Corro à banca no dia seguinte para comprar o jornal. O que diabos Nélson Rodrigues teria escrito sobre o jogo que eu não o deixara ver ? Eis :- Vejam vocês como o futebol é estranho – às vezes maligno e feroz. Mas não quero ter fantasias esplêndidas. O jogo Brasil x Peru, ontem, no Mário Filho, não assustou a gente. Diz o nosso João Saldanha : “O Brasil fez seu jogo, jogo brasileiro”. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um. Outra coisa formidável : na semana passada, um craque nosso veio me dizer : “Nélson, é preciso que você não se esqueça : ao cretino fundamental, nem água”. O jogo foi lindo”.Penso com meus botões que Nélson não precisou esperar pelo início do jogo para escrever a crônica. Com certeza, despachou o texto para o jornal antes da chegada do repórter intruso. Os “idiotas da objetividade” se encarregariam de registrar, nas páginas esportivas, o jogo real. Porque o jogo de Nélson seria lindo de qualquer maneira. E aos cretinos fundamentais ? Aos cretinos fundamentais, nem água....
...A lista de surpresas nessa tarde no Leme não se esgotaria aí. Quando deu por encerrada a entrevista, Nélson pergunta ao repórter : “E então, você me achou muito reacionário ? “. Não, claro que não....
Fonte:http://www.geneton.com.br/archives/000012.html
Uma crônica...
Delicado
Nelson Rodrigues
Primeiro, o casal teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:
— Papagaio!
Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso.
Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam: "Entrega os pontos, que é mais negócio!"
Seu Macário respirou fundo:— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem!
Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos, tranqüila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais. Digo "sofria mais" porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma chapa dupla.
Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!
NOVO PARTO
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: "Não é pra já!". Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:— Meus dentes estão doendo!E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura.
A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha.
Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:
— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!
EUSEBIOZINHO
Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar. Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: "Levou algum ponto?". Ralharam:— Sossega o periquito!O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: "Tenho um filho homem. Agora posso morrer!". E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa.
Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo:
— Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!
FLOR DE RAPAZ
Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam: "Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!". O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:— Você tem namorada?— Não.— Nem teve? — Nem tive. Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com os vaticínios mais funestos: "Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?". Virou-se para d. Flávia:
— Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá!
Implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição.
Apontava:
— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!
PROBLEMA MATRIMONIAL
Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam: "É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!". Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:
— Está muito bem assim!A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce.
Mas a mãe chorou, replicou:
"Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim".
Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:
— Casar pra quê? Por quê? E vocês? — Interpela as irmãs: — Por que vocês não se casaram?
A resposta foi vaga, insatisfatória:
— Mulher é outra coisa. Diferente.
A NAMORADA
Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu: "Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!". Ocorreu, então, o seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço. O desgraçado crispou-se, eletrizado:
— Não faz assim que eu sinto cócegas!
O VESTIDO DE NOIVA
Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: "Não é bacana esse modelo?". A reação do rapaz foi surpreendente.Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:
— Que beleza, meu Deus! Que maravilha!Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: "Mas como é bonito! Como é lindo!". E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!
0 LADRÃO
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: "A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!". Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: "Desapareceu o vestido da noiva!". Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: "O golpe é casar sem vestido de noiva!". Para quê? Ela se insultou:
— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!
Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: "Quero ser enterrado assim".
O texto acima foi extraído do livro "A vida como ela é...", Companhia das Letras- São Paulo, 1992, pág. 39
Indicação: site Releituras.com
http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp

Nenhum comentário:
Postar um comentário