Li o primeiro texto do Affondo Romano por acaso. Tava num desses sebos da vida quando me deparei com um livrinho, pequeninho cujo nome me chamou a atenção: Tempo de delicadeza; era dele, são vários contos lindos, que falam por nós, como esse que segue.
Uma longa, longa espera por um verdadeiro ENCONTRO de corpo, alma e pensamento...
O primeiro encontro
"Iam se encontrar como o equilibrista em cima de um fio, longe do chão, sem rede de amparo.Iam se encontrar como um navegante, um desbravador, chegando a um continente desconhecido e desejado.Então, já que iam se encontrar começaram a se preparar como só se preparam as ondas quando à areia vão chegar. Puseram-se a pré-sentir o momento do encontro, intensificando os sinais trocados como o piloto emite sinais de aproximação atento ao radar.Este não era um encontro qualquer, senão o primeiro. E o primeiro encontro, eu lhes digo, exige arte maior. Por isto , sendo adultos, pareciam ter dezesseis anos, ou qualquer idade em que o primeiro encontro se dá.Os que vão ao primeiro encontro querem pavimentar o caminho do encontrar. E nisto às vezes aplicam tal esmero, que até parece que estão mais interessados no pré-encontro que no encontrar.Eles têm algo secreto que ninguém vai detectar. Na verdade, se parecem a essas galáxias que avançam a trezentos mil quilômetros por segundo ao nosso encontro, e nem por isto são notadas pelos simples mortais.Eles dialogam com o invisível e com o imponderável. Com a alma silvestre, colhem flores inexistentes no asfalto e vêem ternura na rispidez dos edifícios.Não pisam o chão dos demais. Na verdade, caminhavam já noutra dimensão.A carga do primeiro encontro, eu lhes digo, às vezes é quase insuportável. Só quem tem asas de anjo pode transportá-la.O desejável é que o primeiro encontro fluísse com a naturalidade que só têm aqueles que já se encontram cem vezes. Mas para se encontrarem cem vezes, eles sabem, é necessário transpor , construir esse primeiro e incontornável encontro.O poeta dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros. Pois há também a sutil arte do primeiro encontro. E o primeiro encontro é tão complexo e interminável, que devemos admitir que ele pode se dar no décimo quinto encontro ou trinta anos depois. Podem, estranhamente, os desencontros anteriores terem sido o esboço do autêntico encontro, que quando ocorrer será iniludível...O ideal é que todo encontro fosse o primeiro encontro. E que se parecesse àquela coisa dos andróginos, aquelas duas partes de um ser que andaram se buscando exiladas por aí, até que um dia se abraçaram e fundiram-se para nunca mais.Quando uma pessoa parte para o primeiro encontro em vão vai se indagando: “ Que presente te dar?” . Todos os presentes parecem precários, fugazes, incompletos. Porque é imensurável o que cada um quer receber e o quanto se quer dar."
Uma longa, longa espera por um verdadeiro ENCONTRO de corpo, alma e pensamento...
O primeiro encontro
"Iam se encontrar como o equilibrista em cima de um fio, longe do chão, sem rede de amparo.Iam se encontrar como um navegante, um desbravador, chegando a um continente desconhecido e desejado.Então, já que iam se encontrar começaram a se preparar como só se preparam as ondas quando à areia vão chegar. Puseram-se a pré-sentir o momento do encontro, intensificando os sinais trocados como o piloto emite sinais de aproximação atento ao radar.Este não era um encontro qualquer, senão o primeiro. E o primeiro encontro, eu lhes digo, exige arte maior. Por isto , sendo adultos, pareciam ter dezesseis anos, ou qualquer idade em que o primeiro encontro se dá.Os que vão ao primeiro encontro querem pavimentar o caminho do encontrar. E nisto às vezes aplicam tal esmero, que até parece que estão mais interessados no pré-encontro que no encontrar.Eles têm algo secreto que ninguém vai detectar. Na verdade, se parecem a essas galáxias que avançam a trezentos mil quilômetros por segundo ao nosso encontro, e nem por isto são notadas pelos simples mortais.Eles dialogam com o invisível e com o imponderável. Com a alma silvestre, colhem flores inexistentes no asfalto e vêem ternura na rispidez dos edifícios.Não pisam o chão dos demais. Na verdade, caminhavam já noutra dimensão.A carga do primeiro encontro, eu lhes digo, às vezes é quase insuportável. Só quem tem asas de anjo pode transportá-la.O desejável é que o primeiro encontro fluísse com a naturalidade que só têm aqueles que já se encontram cem vezes. Mas para se encontrarem cem vezes, eles sabem, é necessário transpor , construir esse primeiro e incontornável encontro.O poeta dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros. Pois há também a sutil arte do primeiro encontro. E o primeiro encontro é tão complexo e interminável, que devemos admitir que ele pode se dar no décimo quinto encontro ou trinta anos depois. Podem, estranhamente, os desencontros anteriores terem sido o esboço do autêntico encontro, que quando ocorrer será iniludível...O ideal é que todo encontro fosse o primeiro encontro. E que se parecesse àquela coisa dos andróginos, aquelas duas partes de um ser que andaram se buscando exiladas por aí, até que um dia se abraçaram e fundiram-se para nunca mais.Quando uma pessoa parte para o primeiro encontro em vão vai se indagando: “ Que presente te dar?” . Todos os presentes parecem precários, fugazes, incompletos. Porque é imensurável o que cada um quer receber e o quanto se quer dar."
Affonso Romano de Sant’Anna
Indicação:
Sant'Anna, Affonso Romano de , 1937 - Tempo de delicadeza/Affonso Romano Sant'Anna - Porto Alegre L&PM, 2007.
O site Releituras.com também traz a sua biografia e alguns textos:
http://www.releituras.com/arsant_bio.asp
Indicação:
Sant'Anna, Affonso Romano de , 1937 - Tempo de delicadeza/Affonso Romano Sant'Anna - Porto Alegre L&PM, 2007.
O site Releituras.com também traz a sua biografia e alguns textos:
http://www.releituras.com/arsant_bio.asp

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